Henfil.

Da orelha (as duas!) do livro “Cartas da Mãe”, que peguei pra ler hoje e, com um nome desses, claro que me deixou surpreendido:

Querido Orelhão,

Falar o nome do Geisel, só podia baixinho e entre amigos de infância. O “alemão” não perdoava. Tinha mil olhos, mil ouvidos e aquela postura de quem vai aplicar chineladas no primeiro que rir.

Se lembra? Então vou repetir a frase do Ivan Lessa, a mais repetida ultimamente: de 15 em 15 anos o brasileiro esquece os últimos 15 anos.

Bão, o que que você estava fazendo em 9 de março de 1977?

Eu estava morando em Natal (Rio Grande do Norte) e lia todo dia todos os jornais procurando pistas da abertura lenta, gradual e segura que o presidente Ernesto Geisel prometia, se a gente ficasse bem bonzinho. Aí, indicado pelo Hugo Estenssoro, ganhei do Mino Carta a última página da sua revista, Isto É, que ia virar semanal: “Faz o que você quiser, meu caro”, disse o Mino.

Que que eu sabia fazer? Desenhar. E desenhei. Mas um amigo, Woden Madruga, encheu minha cabeça que eu tinha que escrever. “Escreve cartas para sua mãe. A melhor coisa que você fazia no Pasquim eram aqueles bilhetinhos pra ela no meio das tiras do Fradim, com os retratinhos de família e tudo.”

Ora, naquele tempo minha mãe morava no Rio e eu estava de fato com dificuldade pra matar a saudade dela e minha. Dona Maria já sofria com um filho, Betinho, exilado no Canadá, e agora outro tão longe, lá no nordeste.

Escrevi.

Timidamente. Só nas entrelinhas falando do governo. Sugerindo. Usava a linguagem dela, o jeitinho dela pra dizer as coisas. E a cada carta que publicava, esperava o aviso da censura. E a censura não vinha. É verdade que eu contava com o respeito que o retrato da mãe provocava. É como se eu estivesse escondido debaixo da saia da mãe. Tinham que passar por cima dela pra me pegar. E fui ousando, lenta e gradualmente. Como você poderá ver lendo a primeira carta, depois a segunda… até hoje.

Será pretensão minha dizer que, por estas cartas, publicadas na Isto É nos anos de 1977, 78, 79 e 80 é possível acompanhar a história do Brasil deste período? Pois sou assim pretensioso.

As cartas vivem o início da abertura, os apertos, os medos, a campanha pela anistia, os depoimentos no exílio do Betinho, as greves do ABC, os medos, a volta dos exilados, os apertos, 1977, 78, 79, 80…

Voltando lá atrás. Aos poucos eu fui escrevendo o nome Geisel. Até ele acostumar e não achar que era desrespeito. Depois fui tomando liberdade pra sentar no colo dele, mexer nos bolsos dele. Quando ele viu, eu tinha pregado chicletes na cadeira dele. Aí, já era tarde. Aldir Blanc e João Bosco já cantavam pela voz da Elis: — Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil…

Conclusão.

Primeiro: quem tem mãe não tem medo.

Segundo: se todo mundo falar que nem eu, como se EU tivesse feito a abertura, vamos acabar descobrindo que ninguém nos deu abertura nenhuma — nós que conquistamos.

E tome que a mãe é sua também.

Henfil
São Paulo, 13 de novembro de 1980 (dia da reproclamação das eleições diretas pra governador!)

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Natal, 4 de maio de 1977.

Mãe,

Pois é, tava uma esperança tão gostosa. A gente acordava sem temores, lia o jornal relaxado, via TV desinteressado, última edição extraordinária tinha sido a da queda do Brandão… de repente, trancaram o mundo.

Mas o que foi desta vez que nós fizemos? Alguma nós fizemos!

Fui olhar na gaveta pra conferir os impostos. Tá tudo pago e em dia! Quer dizer, não foi por aí. E aí pensei: será que andamos assistindo a filmes tentatórios como Z, Último Tango? Ou será que andamos lendo certos livros como Feliz Ano Novo? Será, Deus do céu! que alguém andou assistindo o Bolshoi? Por tudo que é sagrado, mãe, ninguém no Brasil viu estes filmes, leu estes livros. Quero ver a senhora dura atrás da porta, se eu vi o diabo desse balé!

Será que andamos foi traindo a nacionalidade? Como? Se continuo escutando rock, usando calça Lee, mascando chicletes, bebendo Coca ou Pepsi, andando de Volks e assistindo Kojak? Continuo dos pés à cabeça um brasileiro roxo e autêntico.

Estaríamos então badernando e arruaçando? Mas é só olhar: reina completa ordem, paz e tranquilidade nas filas do INPS, do feijão, dos trens, ônibus e ambulatórios. Percorri quilômetros delas e em todas há disciplina, um atrás do outro, ordem.

Assim, mãe, carecem de nos dizer o que de errado andamos fazendo para nos caber tão pesado castigo. Saber pra gente se emendar, corrigir e nunca mais repetir. Se não, se não, a gente vai achar que o que andamos fazendo de errado foi andar nesta ordem toda. Será que somos maus justamente porque somos dóceis e respeitadores? Porque ficamos nas filas sem reclamar? Porque pagamos os aumentos sorrindo? Mãe, será que pagar todos esses impostos em dia é que é a tal (cruz credo!) subversão?

Precisam orientar o povo, estamos confusos.

A bênção do seu pacato e ordeiro filho,

Henfil.

PS: Tire o dinheiro da senhora da caderneta de poupança e invista no custo de vida: tá dando 4,2% ao mês!

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