Portanto, o problema é o seguinte: acima de tudo, se os intelectuais franceses de hoje se encontram em uma situação absolutamente difícil e se são coagidos a experimentar uma espécie de vertigem, quando não de desespero, é porque, desde a revolução cultural chinesa, e, em particular, desde que os movimentos revolucionários se desenvolveram não apenas na Europa, mas no mundo inteiro, eles foram levados a formular esta série de questões: será que a função subversiva de escrita subsiste ainda? A época em que só o ato de escrever, de fazer existir a literatura por sua própria escrita bastava para expressar uma contestação, no que diz respeito à sociedade moderna, já não estaria acabada? Não teria chegado, agora, o momento de passar às ações verdadeiramente revolucionárias? Agora que a burguesia, a sociedade capitalista desapossaram totalmente a escrita dessas ações, não estaria o fato de escrever apenas reforçando o sitema repressivo da burguesia? Não seria preciso cessar de escrever? Quando digo tudo isso, acredite-me, não estou brincando. É alguém que continua a escrever que lhes fala. Alguns dos meus amigos mais próximos e mais jovens renunciaram definitivamente a escrever, pelo menos é o que me parece. Honestamente, em face dessa renúncia em benefício da atividade política, não apenas fico admirado, como sou tomado por uma violenta vertigem. Afinal, agora que não sou mais tão jovem, contento-me em continuar esta atividade que, talvez, perdeu algo desse senso crítico que eu quis lhe dar.

– michel foucault, Ditos e escritos vol. I.

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