Luas.

Seu olhar boiava sonso nos ares da sala. A luz amarela das velhas lâmpadas deixava o ambiente macio e pequeno: algo como um lar que poderia ter sido. Saboreava a sensação de já ter morado ali enquanto ela se distraía a lavar algumas louças e conversar bobices cheias de sentido. Outras poucas pessoas circulavam entre sala e cozinha no ritmo próprio das noites no meio do mato, com seus barulhos de bichos bestas e luares e pensamentos mais bestas ainda. Nessas noites só o corpo merece respeito quando, cansado, impõe lento seu dormir. Mas ainda não estavam nesse ponto, que apenas se aproximava. Ocupavam-se esperando e conversando distraídos quando, muito discretamente, uma luz macia e saborosa entrou por uma das janelas. Dela flutuou como a observar onde se chegava, e muito mansamente foi avançando no espaço, avançando, clareando um rastro que aos poucos cruzava a sala. Era um feixe do tamanho da janela, flutuante como mágica, e já se tornara possível adivinhar para onde ia: a cozinha. Do mesmo jeito manso que entrara foi ocupando sua direção no ar; e ele notou que ninguém se dera conta. Nem da luz, nem do cheiro bom que ocupou o do café recém-tomado, nem da mornidão que reconfortava, até os cantos, toda a casa. Era discreta a luz do luar; discreta e sua, pois só ele via. E a luz foi se esgueirando na direção que ia (sabor bom que era), alcançou a cozinha e pousou macio nas costas dela. Envolveu-lhe a pele exposta do vestido, aos poucos os ombros; subiu a rodear-lhe os cachos e então mergulhou neles como os corpos nos travesseiros. Ficou por ali iluminando de perfume, e mesmo ela, de distraída que estava com suas louças, também não percebeu nada. Só ele, então, e a própria lua: era algo de se ver sozinho. A luz se chegara onde resolvera e permanecia, imóvel e calma. Não ondulava nem se mexia, apenas emitia seu calor e um cheiro que parecia ter encontrado seu lar. Continuavam os outros vagueando juntos, era apenas ele quem estava sozinho. E ela, distraída. Fechou os olhos por um instante curto e prolongado, e deixou seu corpo compartilhar todo aquele descanço. Um prazer morno lhe percorreu inteiro às pontas dos dedos, o sabor lhe cobriu a pele e então abriu lentamente os olhos; a cena permanecia. Numa leve tomada de fôlego abriu-se todo, olhos pele e nariz e boca e ouvidos e tudo o mais que sentimos de onde não sabemos, pra que luz e cheiro e cozinha e pele e vestido se tornassem uma coisa só na sua mente: lembrança. Suave magia feita, deu-se por satisfeito e continuou a saborear os gostos que a noite lhe trouxera, até seu corpo exigir a todo o resto que se calasse. E, durante os três quartos de hora que se passaram antes de ir deitar-se e dormir, permaneceu com um sorriso na boca que ninguém entendeu de onde viera; nem, muito menos, pra onde ia.

Anúncios

2 comentários sobre “Luas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s