Aforismos.

É essencial desenvolvermos o conhecimento ao máximo para compreender os esplêndidos axiomas da contradição. Quantas vezes ouvi alguém dizer: “Aquele autor é um burguês conformista e reacionário… não me interessa”. Assim, a priori. Um belo rótulo e fora!… Sem me deixar convencer, ia lê-lo e descobria um atrevimento, uma coragem no plano formal e ideológico de altíssimo nível. Por quantos séculos, fileiras de intelectuais agnóstico-libertários desdenharam os clowns, os saltimbancos, os bonecos, assim como deixaram também de levar em consideração o teatro religioso de diversos povos, a começar pelo seu próprio? Encontrei coisas maravilhosas em tal teatro. E quantos daqueles que se denominam marxistas gargarlharam à idéia de ir vasculhar no teatro popular dos ritos, particularmente naquele conhecido como “maias”?

(…)
Em um debate que contava com a presença de diversos pesquisadores, a verdade finalmente emergiu. A censura drástica foi imposta pelos jesuítas durante o século XVII, logo depois da grande reforma. Dessa maneira, por ordem superior, desaparece o cômico, desaparece o demônio, desaparece o bêbado, desaparece a mulher intrometida, desaparece todo e qualquer personagem que estabeleça provocação e dialética. O professor da Garfagnana, exemplo clássico do conformismo católico digno da Comunhão e Libertação, foi desmascarado. Ainda assim tentou vender gato por lebre, minimizando o fato, e levantou a voz em declarações histéricas.

O debate transformou-se em contenda, mas ao final obtiveram-se duas conclusões claras e irrefutáveis: o poder, qualquer poder, teme, mais do que tudo, o riso, o sorriso, a troça, a gargalhada. Pois a risada denota senso crítico, fantasia, inteligência, distanciamento de todo e qualquer fanatismo. Na escala da evolução humana, temos, inicialmente, o homo faber, em seguida o homo sapiens, e finalmente, sem dúvida, o homo ridens. Este o mais sutil, difícil de submeter e enquadrar. Segunda conclusão: o zé-povinho, a gente mais simples, nunca renunciou, mesmo ao representar as histórias mais trágicas, a incluir o humor, o sarcasmo, o paradoxo cômico.

– dario fo, Manual mínimo do ator.

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4 comentários sobre “Aforismos.

  1. este papo sobre o riso me levou a pensar que o dionisíaco a que se refere nietzsche pode ser associado à dissolvedora gargalhada – e o apolíneo ao olhar concentrado, grave, ao discurso solene. o que seria a “gaia ciência”… uma ciência do riso? ou uma ciência COM riso? ou fazer ciência às gargalhadas?

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