Henfil. Natal, 12 de outubro de 1977 (do livro Cartas da Mãe):

Dona Conceição,

Tá difícil seguir aquele seu conselho: mais vale um biscoito de farinha para desarmar os espíritos…

Tem horas que estupora. A gente vai se irritando diante das coisas e diante de certas gentes, que esquece a receita do biscoito. Eu tenho que desabafar em cima deles, mãe. Senão fico doente.

O que pensei foi o seguinte: já que eu não posso falar o que penso, já que não posso escrever o que acho realmente de tudo e de todos, o que me resta para demonstrar minha ira?

Morder.

Tem algo menos subversivo, menos contestador e menos passível de ser relacionado com qualquer plano exótico e alienígena do que morder? Tem? Acho morder a coisa mais Brasil, mais nacionalista que tem. É um ato individual, sem ligações com grupos e que jamais poderá ser acusado de revanchismo, saudosismo. Melhor ainda: não está previsto no 477 nem no AI-5.

Morder. O único caminho legal que nos resta.

O que fazer com o governador biônico do Espírito Santo que quer expulsar o professor Ruschi de sua reserva ecológica onde estuda plantas e beija-flores, para no lugar plantar palmito? Morder!

Aquele que estiver mais próximo do governador, tenha a bondade: dê-lhe uma mordida! E, que nem as tartarugas quando mordem: só soltem quando relampear!

E o Marcos Tamoyo? Aquele prefeito eleito diretamente pelas incorporadoras para facilitar o maior boom imobiliário do Rio? Que vai morar num apartamento de 20 bi, onde o condomínio é de 20 milhões mensais e onde mora o seu vizinho (e sócio) Sérgio Dourado?

MORDAM ELE! Você, funcionário da prefeitura, faxineiro, copeiro, fiscal, um de vocês aí: mordam o prefeito Tamoyo! Onde pegar! Onde pegar!

Quando alguém vier perguntar a você, que não pode votar, qual o seu candidato a presidente: MORDA O DEBOCHADO!

E atenção: prestem atenção no dom Sherer, que vive oferecendo seus colegas bispos e padres em holocausto. Quando ele levantar o dedo: mordam! MORDAM O DEDO DELE!

Ai que desespero, meu Deus!

A bênção de seu filho,
Henfil.

P.S.: Mino! Se você não publicar, eu te mordo!

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