Entrevista sobre rádios livres.

Entrevista de Felix Guattari a estudantes de jornalismo da PUC-SP, em 26 de agosto de 1982.

Veja na íntegra. Também aqui.

Alguns trechos:

No início era apenas uma minoria: o pessoal das rádios livres era um bando de loucos, um pouco como Dom Quixote atacando o grande monopólio. Era espantoso. É como se as pessoas aqui resolvessem agora ir atacar um quartel. Rapidamente, o fenômeno ganhou uma força incrível, produzindo um impacto sobre a grande mídia, como se esse ato de ilegalidade tivesse criado uma rachadura no edifício do monopólio. Parece que, de repente, implantou-se um dúvida sobre a legitimidade desse monopólio. É como se uma vidraça, já trincada, se partisse totalmente sob o impacto de um simples pedregulho.

Esquematicamente, as etapas foram as seguintes: esse pequeno grupo de camaradas, diretamente inspirados pelos italianos (mais que inspirados, pois os materiais italianos eram, basicamente, o que mais se utilizava), viu sua iniciativa estender-se rapidamente por toda a França. Muitas vezes, duas ou três pessoas colocavam os equipamentos em uma cozinha e começavam a emitir. Entre os grupos que se formavam, alguns eram folclóricos e insignificantes. Outros, pelo contrário, eram muito importantes desde o início. Por exemplo, o grupo Fessenheim, na Alsácia, equipou-se com material móvel e começou a emitir em três línguas: o francês, o alemão e a língua local. A repressão nunca conseguiu capturá-los: provavelmente, passavam de uma montanha para outra… Em seguida, apareceram os grupos militantes, não profissionais. Em primeiro lugar vieram os ecologistas e fanáticos do rádio. Depois vieram os militantes de bairros, como os de Saint Denis (subúrbio de Paris), que inventaram um modelo de rádio que imediatamente se tornou muito significativo. Eles estavam ligados a tudo o que se passava no bairo — onde, aliás, havia muitos trabalhadores imigrantes. As pessoas então vinham pessoalmente na rádio contar o que se passava, denunciar nominalmente seu Fulano ou Dona Sicrana. Eles emitiam dia e noite — principalmente à noite, porque nesse momento não há concorrência, e a mídia menor se torna maior. Isso desencadeou uma repressão e, ao mesmo tempo, uma reação contra a repressão, uma intensa mobilização por parte de juristas e intelectuais.

Houve então um fenômeno de “bola de neve”: quanto mais se reprimia as rádios livres, mais elas se desenvolviam. Enquanto os sindicatos operários eram inteiramente fiéis ao princípio do monopólio, os grupos de seções sindicais começaram a se utilizar das rádios livres, o que provocou desequilíbrios e gerou uma série de conflitos dentro dos sindicatos. Os partidos de oposição ficaram solidários às rádios livres, dizendo: “nós somos favoráveis ao monopólio, mas não queremos repressão sobre as rádios livres”. Então nós pedíamos que viessem dizer isso nas nossas rádios livres. Eles vinham, a polícia vinha atrás e os processava. Até Mitterrand teve uns encontrões com a polícia… e todo mundo sabe que Mitterrand é o homem da legalidade! No próprio seio da maioria giscardiana, as contradições se acirravam, porque interesses financeiros consideráveis, assim como interesses políticos locais, também começaram a questionar o monopólio.

(…)

Durante anos, fomos objeto de uma campanha de denegrimento nessa questão técnica. É preciso conhecer bem o aspecto técnico da coisa porque, se um dia acontecer um movimento de rádios livres no Brasil, esse problema certamente vai surgir. Os técnicos nos diziam: “o que vocês fazem é perigoso. Vocês são uns irresponsáveis. Vocês podem entrar na frequência da rota de aviões, de ambulãncias ou da polícia. Vocês podem desencadear uma catástrofe urbana”. Na realidade, nada disso aconteceu. O medo que eles tinham era que se pudesse instaurar um bagunça no plano social, e que esse tipo de rádio tivesse a mesma função que teve na Itália: servir de caixa de ressonância a movimentos políticos muito fortes.

– felix guattari, Cartografias do desejo.

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2 comentários sobre “Entrevista sobre rádios livres.

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