Com que espírito comereis?

Tokusan, o famoso erudito do Kongo Kyo, ouviu falar, um dia, num mestre que todo o mundo reputava muito grande: mestre Ryutan (literalmente: “O Dragão do Lago”). Julgando-se invencível no conhecimento do Kongo Kyo e, por esse motivo, havendo-se na conta de pessoa de grandíssimo valor, Tokusan experimentou o desejo de encontrar esse homem, mais considerado do que ele, e enfrentá-lo.

Chegando à porta do templo, avistou uma tendazinha servida por uma velha, que ali vendia bolinhos de arroz. Tokusan pediu três. O seu ar fanfarrão despertou a curiosidade da velha:

– Que trazeis ao ombro? — perguntou ela.

– Um texto extremamente precioso e de tamanha profundeza que não posso falar convosco sobre ele. É o Kongo Kyo. Mas isso não significa nada para vós, dai-me os meus bolinhos de arroz!

– Sou ignorante, é verdade, mas também sou curiosa — contraveio a velha. — Vou fazer-vos uma pergunta, e só vos darei os bolinhos de arroz se responderes a ela. Não é nesse texto precioso e profundo que está escrito que o espírito do passado é imperceptível aos sentidos, que é imperceptível aos sentidos o espírito do presente e que é igualmente imperceptível aos sentidos o espírito do futuro? Dizei-me, pois, com que espírito comereis os bolinhos de arroz? Que espírito escolher?… o do passado, o do presente ou o do futuro?

Tokusan quedou-se estupefato… Não conseguiu os bolinhos de arroz, que lhe haviam ficado imperceptíveis aos sentidos. Muito perplexo, imaginou que Ryutan devia ser, de fato, um mestre tão grande que até uma velhinha, simples guardiã do templo, tinha o espírito hábil.

Transpôs a grande porta do templo e foi ver Ryutan, que o acolheu com simplicidade. Feita a sua cama e definida a sua tarefa, foi-lhe solicitado que se retirasse até o dia seguinte.

***

Todos os dias, com aplicação, Tousan varria o pátio, capinava o jardim, limpava as salas do templo e desse modo se lhe escoavam as horas.

– Vim aqui por ter ouvido dizer que Ryutan é o grande dragão do lago; nesse lago, no entanto, não vejo dragão nenhum! — exclamou, um dia, exasperado e lasso.

Mestre Ryutan aceitou o mondo, que se prolongou até uma hora muito avançada da noite. Fatigado, mestre Ryutan o dispensou.

Transposto o limiar, a escuridão era total. Por isso mesmo mestre Ryutan foi buscar uma lanterna. Mas no instante preciso em que a estendeu a Tokusan, soprou-lhe a chama e a escuridão se fez de novo, mais espessa do que nunca.

Nesse instante, Tokusan obeteve o grande satori. Como foi que ele o obteve?

É o koan.

– taisen deshimaru, A tigela e o bastão.

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