O deserto do copyright.

Uma visitante comentou:

Cyrano,
mesquinharia foi ótimo!

Ai de nós, designers, que não fossemos mesquinhos com os nossos projetos, conceitos e layouts!

Abraço

Ela tava se referindo a uma lenga-lenga que rolou aí.

(Eu peguei uma imagem de um cara, que tinha por sua vez usado uma imagem famosa para fazer a dele, e fiz uma logo pro projeto Meta(c)afé (que é 100% copyleft). Perguntei-o a respeito de minha edição e isso o deixou bastante ofendido. Tirei tudo que tinha publicado a respeito e respondi aqui ou ali alguns protestos de designers profissionais. Para eles, sou basicamente um picareta e não há nada além disso para ser visto, discutido ou pensado.)

Ao que eu, com minha paciência e pedagogia de costume, respondi:

Oi Visitante!

Ai de vocês mesmo… A gente vive numa sociedade acostumada à presença indiscutível dos técnicos. “Um dia precisaremos de vocês”… Não soa como uma maldição? Calma. Tem gente que faz bem as coisas e se esforça para melhorar suas artes: prefiro chamar essas pessoas de artesãos. O nosso problema é que a respeitável reputação do artesão, um fruto espontâneo de seu trabalho, foi trocada por pedaços de papel chamados diplomas. Com um desses qualquer pessoa, mesmo (e geralmente) a mais imbecil, se faz passar por bom artesão. A essas pessoas com diploma eu chamo: profissionais. E tanto o artesão quanto o profissional merecem que lhes diga: vocês não tem autoridade nenhuma, seu “conhecimento” não vale nada — sozinho. Conhecimento parado cheira a mofo, fica verde e pegajoso. E o protecionismo que os incompetentes oportunamente apóiam acaba servindo, essencialmente, para isso: parar o conhecimento. Esquecem que, apesar de seus esforços, o conhecimento está circulando por aí, pelos ares, e que bons artesãos não sentem medo de ser gentis; estão abertos para coisas novas, para compartilhar. Com ou sem diploma, espalham seu conhecimento sem mesquinharia porque o que dá vida ao seu trabalho é a abertura, não a paranoia. Poderíamos sim aprender muitas coisas, ser pescador pela manhã, marceneiro de dia, professor de noite… Mas não, vocês acham que cada pessoa tem que trabalhar numa profissão só, ganhar seu dinheiro com um trabalho só, seguir sua vocação que é uma só… E se eu sou garçom, cozinheiro, designer, professor de yoga, filósofo, técnico de informática e mecânico? E se quero ser pedreiro também, marceneiro, e agricultor? Cada um é uma multidão. Entendeu? Aposto que não. A escassez e a concorrência não existem. Mas vocês acham que sim. A gentileza e a troca existem, mas vocês acham que não. Ou acham que são perigosas e deviam ser proibidas, o que é ainda pior. Ninguém precisa fingir que todo conhecimento é mágico, “só seletos iniciados devem ter acesso”… Nem precisa fingir que coisas se criam do nada, por brotação espontânea, por gênios que não usaram nenhuma sabedoria pública… Mas vocês, e todos os que apóiam o “direito autoral” para proteger sua rala competência, acham que sim; e seguem fingindo. De qualquer forma, isso pouco importa. As artes e artesãos sempre existiram e continuarão existindo. Eu, e os meus, não precisamos de vocês. Seguimos ruminando o conhecimento para que ele circule em seu complexo sistema alimentar. Nós o libertamos, eternamente. Em outras palavras: nós vencemos.

Aquele abraço!

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