Se fosse para escrever um livro, seria com essas mãos.

Que misterioso protesto seria esse (o do inconsciente) que não tem a ver — em todo caso, não diretamente — com o protesto das consciências e de seus interesses ou com aquilo que se expressa em manifestações como as de uma campanha eleitoral? Se situarmos o inconsciente na maneira de se orientar e de se organizar no mundo — as cartografias que o desejo vai traçando, diferentes micropolíticas, que correspondem a diferentes modos de inserção social — desfaz-se o mistério: motivos de sobra justificam tal protesto. Não é nada difícil identificá-los: todos vivemos, quase que cotidianamente, em crise; crise da economia, especialmente a do desejo, crise dos modos que vamos encontrando para nos ajeitar na vida — mal conseguimos articular um certo jeito e ele já caduca. Vivemos sempre em defasagem em relação à atualidade de nossas experiências. Somos íntimos dessa incessante desmontagem de territórios: treinamos, dia a dia, nosso jogo de cintura para manter um mínimo de equilíbrio nisso tudo. Temos de ser craques em matéria de montagem de territórios, montagem, se possível, tão veloz e eficiente quanto for o ritmo com que o mercado desfaz situações e faz outras. Entretanto, não pode ser qualquer a natureza de tais territórios: vemo-nos solicitados o tempo todo e de todos os lados a investir a poderosa fábrica de subjetividade serializada, produtora destes homens que somos, reduzidos à condição de suporte de valor — e isso até (e sobretudo) quando ocupamos os lugares mais prestigiados da hierarquia dos valores. Tudo leva a esse tipo de economia. Muitas vezes não há outra saída. É que quando na desmontagem, perplexos e desparametrados, nos fragilizamos, a tendência é adotar posições meramente defensivas. Por medo da marginalização na qual corremos o risco de ser confinados quando ousamos criar qualquer território singular, isto é, independente de serializações subjetivas; por medo de essa marginalização chegar a comprometer até a própria possibilidade de sobrevivência (o que é plenamente possível), acabamos reivindicando um território no edifício das identidades reconhecidas. Tornamo-nos assim — muitas vezes em dissonância com nossa consciência — produtores de algumas sequências da linha de montagem do desejo.

Mas tudo isso não é assim tão simples: os inconscientes às vezes — e cada vez mais — protestam. Só que, a rigor, não poderíamos chamar isso de “protesto”. Melhor seria falarmos em “afirmação” ou em “invenção”: desinvestem-se as linhas de montagem, investem-se outras linhas; ou seja, inventam-se outros mundos. A raiz desse sistema, que tem por base a padronização do desejo, sofre um golpe a cada vez que isso acontece. E quando isso acontece (algo assim estaria acontecendo naquele momento no Brasil?) descobrimos em Guattari um “aliado”, e da melhor qualidade. Não como representante de uma escola em cujo seio poderíamos nos reassegurar, mas como traçado de uma trajetória de um certo tipo, que mobiliza intensidades de nossa própria trajetória — desconhecidas, talvez — e que faz com que se fortaleça em nós a vontade de afirmar, na fala ou não, a singularidade de nossa experiência.

– felix guattari e suely rolnik, Cartografias do desejo.

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3 comentários sobre “Se fosse para escrever um livro, seria com essas mãos.

  1. Tudo isso é tão claro e ao mesmo tempo tão inacessível.
    Tudo é tão destoante como totalizante, se não não seria tudo.
    Onde estais? Onde queres chegar?

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  2. estou, como deleuze e guattari, buscando aliados — que queiramos ou que nos queiram. Nada de inacessível, pelo contrário: buscamos os insconscientes que protestam. A guerrilha das singularidades trava suas batalhas risíveis dentro de cada um de nós, cotidianamente. É que não nos ensinaram a arte de viver no deserto… Tente achar o livro, experimente-o. Ele –eventualmente — agencia singularidades.

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