Singularidade e individualidade segundo a imprensa.

A Folha de São Paulo convidou Guattari para uma mesa-redonda pedindo-lhe que propusesse um tema. Ele sugeriu “Cultura de massa e singularidade”. No entanto, o título anunciado foi “Cultura de massa e individualidade”. O termo “singularidade”, segundo disseram, parecia ao jornal demasiadamente sofisticado, inacessível a seu leitor — exatamente, o consumidor de cultura de massa.

Esse fato é, no mínimo, uma coincidência reveladora, sobretudo se o pensarmos nos termos das próprias ideias de Guattari. Ele concebe a subjetividade como produção, e considera que uma das principais características dessa produção nas sociedades “capitalísticas” seria, precisamente, a tendência a bloquear processos de singularização e instaurar processos de individualização. Os homens, reduzidos à condição de suporte de valor, assitem, atônitos, ao desmanchamento de seus modos de vida. Passam então a se organizar segundo padrões universais, que os serializam e os individualizam. Esvazia-se o caráter processual (para não dizer vital) de suas existências: pouco a pouco, eles vão se insensibilizando. A experiência deixa de funcionar como referência para a criação de modos de organização do cotidiano: interrompem-se os processos de singularização. É, portanto, num só movimento que nascem os indivíduos e morrem os potenciais de singularização. Tudo isso constitui uma imensa fábrica de subjetividade, que funciona como indústria de base de nossas sociedades. É exatamente nessa indústria que a mídia, tal como existe hoje em dia, com sua cultura de massa, teria um papel de destaque.

Podemos, agora, voltar à Folha.

Ao substituir o termo “singularidade” por “individualidade”, o jornal, curiosamente, encenou o próprio tema do debate: cultura de massa e singularização não podem aparecer numa mesma frase; elas são, na realidade, incompatíveis. A imprensa, enquanto produtora de cultura de massa, alimenta-se de fluxos de singularidade para produzir, dia a dia, individualidades serializadas. Democraticamente, ela “amassa” os processos de vida social, em sua riqueza e diferenciação e, com isso, produz, a cada fornada, indivíduos iguais e processos empobrecidos.

Mas não fica só aí a coincidência. Complementando sua mise-en-scène, o jornal justificou a troca dos termos argumentando que a palavra “singularidade” seria uma sofisticação inacessível a seu leitor. De fato, singularizar é luxo nos tempos que correm! Ainda mais no mundo das páginas diárias, fabricado por essa máquina cuja função é exatamente inversa: produzir indivíduos deslocáveis ao sabor do mercado e, para isso, precisando interceptar seu acesso aos processos de singularização. Isso sim, sem dúvida, adapta-se perfeitamente aos tais “tempos que correm”…

– suely rolnik em Cartografias do desejo.

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