Capitalismo II.

Nesse mesmo sentido, em um século crescentemente marcado pela indigenização da modernidade, o projeto de Max Weber de comparar as possibilidades abertas ao desenvolvimento capitalista por diferentes ideologias religiosas parece cada vez mais bizarro. Não que seja bizarro falar em organização cosmológica da ação prática, com certeza uma das grandes idéias de Weber. O que parece cada vez mais curioso é o modo como os weberianos se fixaram na questão de por que tal ou qual sociedade teria falhado em desenvolver este summum bonum da história humana, o capitalismo — tal como conhecido e amado pelos ocidentais. Em 1988, quando eu estava na China, esse tópico andava criando um certo confucionismo. Escutei um sinólogo americano observar que, durante a dinastia Qing, a China chegara “ah, tão perto” de uma decolagem para o capitalismo. Mas tudo isso é equivalente a indagar porque os povos das terras altas da Nova Guiné não desenvolveram os espetaculares potlatch dos Kwakiutl. Eis uma pergunta que poderia bem ser feita por um cientista social kwakiutl, já que, afinal, com suas complexas cerimônias interclânicas de troca de porcos, os melanésios chegaram bem perto. Mais perto do alvo — ou, talvez, exatamente na mosca — acertava a questão dos missionários cristãos sobre como podiam os fijianos, em seu estado natural, deixar de reconhecer o verdadeiro deus. Poderíamos igualmente perguntar por que os cristãos europeus não desenvolveram o canibalismo ritual dos fijianos. Afinal, eles chegaram tão perto.

– marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.

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