Um certo tipo de império.

Reanimando os atenienses depois de um segundo ano de guerra contra os espartanos, o segundo ano da guerra do Peloponeso, Péricles advertiu seus compatriotas de que se encontravam em risco não apenas de perder o império, mas de sofrer as “animosidades incorridas durante seu exercício”. “Porque o que vocês exercem”, revelou-lhes, “é, para falar sem rebuços, uma tirania. Talvez tenha sido errado estabelecê-la, mas agora seria perigoso abrir mão dela”. A tirania no exterior foi a obra da primeira e (diriam alguns) maior democracia da história. Mas, afinal, o mesmo tipo de contradição entre liberdade e sujeição habitava a política interna ateniense, em que aos imigrantes, aos escravos e seus descendentes, bem como às mulheres, eram negados muitos dos privilégios democráticos usufruídos pela minoria da população, os cidadãos plenos, homens.

Os atenienses desenvolveram um tipo peculiar de império — distintivamente disposto a fazer fermentar uma mistura volátil de atração e humilhação na população por ele dominada. Ele não era como o império colonial europeu dos tempos modernos, que impunha fisicamente seu próprio Estado a outros territórios e sociedades. Obtidos por invasão e mantidos por ocupação, tais Estados imperiais eram de fato soberanos sobre os povos sujeitados, governando-os com todos os meios necessários de administração, regulação e compulsão. Mas o império ateniense consistia em uma dominação sem administração. De várias maneiras, tratava-se de um império de signos — signos de poder: magnificentes, draconianos, ou ambas as coisas simultaneamente — que reduzia outros Estados, mais ou menos voluntariamente, à submissão, talvez para a própria vantagem e proteção destes, mas certamente sob pena de destruição. Atenas não exercia seu governo sobre outros diretamente, mas, em toda parte, podia intervir na política local, muitas vezes pela força ou por demonstrações de força, para criar democracias fantoche feitas à sua imagem e a ela obedientes. O imperialismo como missão democrática. Muitas das cidades sob tributo eram nominalmente “aliadas”, culturalmente ligadas a Atenas por uma herança comum (como os gregos da Jônia), e politicamente jungidas em uma Liga na qual ela era o hegemon. Controlando as rotas marítimas e os recursos do comércio, o império era condição política do grande empreendimento comercial que fez de Atenas a mais rica e populosa cidade-estado do mundo helênico. Em troca, a riqueza que os atenienses drenavam do império foi destinada às exibições de alta cultura e força bruta pelas quais eles o mantinham sob controle.

O maravilhoso e o criminoso: um império de dominação sem administração opera em grande parte por meio de efeitos de demonstração de seu poder. Por outro lado, Atenas era um espetáculo de cultura que funcionava — para adotar uma forma hobbesiana de governança — “para mantê-los todos em assombro”. Tal era a política dessa glória que foi a Grécia: a magnificência de sua arquitetura e arte, o brilho de seu teatro, suas procissões e cerimônias esplandecentes, a Academia e a Ágora, o ginásio e o simpósio: “Nossa cidade”, vangloriava-se Isócrates, “é uma festa para os que vêm visitá-la”. Cidades súditas, notadamente, visitavam-na, com seus tributos anuais, por ocasião do principal festival, as Dionisíacas, que era também a alta temporada teatral. Mesmo aqueles que nunca tinham visto Atenas podiam conhecer sua superioridade pela reputação de seus escritores e filósofos, de seus políticos e de seus atletas. Quase inevitavelmente, então, seu maior inimigo, a oligárquica Esparta, viria opor-se a ela por meio de uma estratégia de negação cultural: adotando um fundamentalismo material e um moralismo puritano que recusava os valores que Atenas entendia como civilização. Uma mera coleção de aldeias antiquadas, Esparta, comentou Tucídides, não poderia deixar consignada sua fama nos parcos restos que legaria à posteridade; ao passo que as ruínas de Atenas fariam, por muito tempo, seu poder parecer o dobro do que efetivamente fora. Por outro lado, os que não se maravilhavam com a glória ateniense, que não admitiam sua superioridade ou se revoltavam contra ela, sentiriam o peso de sua espada — outra vez, a título de demonstração.

No império dos signos, a força é também um signo de força, talvez o mais efetivo, senão sempre o mais econômico, que almeja induzir o medo e a obediência de muitos fazendo de poucos um exemplo brutal. Assim argumentava o belicoso Cleonte, chamando os atenienses a responder à revolta da cidade aliada de Mitilene com o extermínio de seus cidadãos. “Punam-nos como merecem”, ele disse, “e ensinem a nossos aliados por meio de um exemplo inolvidável que a pena para a rebelião é a morte”. Neste caso particular, o contra-argumento (apelando ao mesmo efeito exemplar) de que seria pouco sábio matar pessoas comuns, inocentes, e que eram em toda parte os naturais aliados democráticos de Atenas, limitou o massacre aos mil e tantos aristocratas de Mitilene considerados responsáveis. Mas, no famoso caso de Melos, uma colônia espartana que se recusava a submeter-se aos atenienses, oferecendo em lugar disso a se manter neutra e amigável, o resultado foi bem menos afortunado. Sua amizade, disseram-lhes os atenienses, seria apenas “para nossos súditos um argumento de nossa fraqueza”. Corria o décimo sexto ano da guerra do Peloponeso, tendo passado um bom tempo desde a revolta de Mitilene, e as demonstrações do poderio e decisão de Atenas vinham adquirindo um valor estratégico cada vez maior. Agora, portanto, ao dar um ultimato a Melos, os atenienses estavam efetivamente dizendo: ou vocês estão conosco, ou estão contra nós. Se os Estados mantêm sua independência, significa que são fortes, e se “não os molestamos é porque temos receio; assim, além de estender nosso império, aumentamos nossa segurança por meio de sua sujeição”. Contando com a justiça de sua causa e com a fútil esperança de que os espartanos ou os deuses a salvariam, Melos recusou-se a render-se, e foi destruída. Todos os homens foram mortos; todas as mulheres e crianças, vendidas como escravas. Não que eles não houvessem sido avisados da vontade de poder de Atenas. “Acreditamos, quanto aos deuses”, disseram-lhe os atenienses, “e quanto aos homens, sabemos que eles, por uma lei necessária de sua natureza, exercem seu domínio sempre que possível.”

Assim movidos por um desejo de mais e mais poder, os atenienses, no final, ultrapassaram a si mesmos, e perderam tudo. Tinham chegado ao ponto em que, aparentemente, se não se expandissem, entrariam em colapso. “Não podemos fixar o limite exato em que deve se deter nosso império; alcançamos uma posição na qual não podemos contentar-nos com o que temos, mas precisamos planejar como estendê-lo, pois se cessamos de dominar outros, nos arriscamos a sermos nós mesmos dominados.” Assim falou Alcebíades, obtendo a aprovação da assembléia ateniense para a grandiosa campanha siciliana, que acabou em um desastre completo, e colocou o império no rumo do declínio e da derrota. Mas, já no começo, cinquenta anos antes da guerra do Peloponeso, quando os atenienses, ao vencer a ameaça persa, descobriram seu próprio destino como poder marítimo, tinham posto em movimento uma geopolítica de expansão que era quase uma fórmula para a perda de controle. O domínio crescente dos mares implicava o desenvolvimento do poderio comercial que proveria o dinheiro, o material e os recursos humanos necessários; assim como, inversamente, o comércio crescente implicava o desenvolvimento do poderio marítimo necessário para garantí-lo. A Atenas democrática tornou-se um poder predador. E no entanto sua população e negócios florescentes logo tornaram-na dependente de importações críticas de energia buscada em terras bárbaras (i.e., não-gregas) situadas nos limites de sua força militar: os ricos grãos da Sicília, Egito, e Criméia distantes. Situada no centro de uma esfera de dominação que se expandia em tantas direções, os interesses, custos e perigos atenienses estavam todos sujeitos a uma multiplicação geográfica da ordem do quadrado do raio de uma circunferência em expansão multiplicada por 3,14159. Para enfrentar suas dificuldades, os atenienses podiam pressionar seus confrades gregos, convertendo aliados em pagadores de tributo, ou encontrar novas terras bárbaras para conquistar. Em qualquer dos casos, o império que produzia o bem-estar em sua terra natal espalhava humilhação e ressentimento no exterior. Presa no clico vicioso de expansão e repressão, Atenas podia ser em geral detestada na mesma medida em que se tornava gloriosa e admirada.

A guerra do Peloponeso foi um testemunho desse ciclo de dominação e resistência — ciclo que, ao fim e ao cabo, ela exacerbou grandemente. Em oposição aos incidentes que desencadearam a guerra, a “causa mais verdadeira” desta última, como disse Tucídides em uma passagem célebre, “foi o poder crescente dos atenienses e o temor que isso inspirava nos espartanos”. Se a guerra então exigiu dos atenienses que explorassem ainda mais seu “poder crescente”, também ofereceu a seus súditos novas possibilidades de revolta e libertação (espartana). A advertência de Cleonte aos atenienses, no quinto ano do conflito, foi ainda mais forte que a de Péricles: “seu império é um despotismo e seus súditos, conspiradores descontentes” — e os eventos não o desmentiriam. No fim da guerra, quando os espartanos, liderados por Lisandro, aproximavam-se de sua cidade cercada e faminta, os atenienses, como disse Xenofontes, choravam por sua derrota e mais ainda por seu destino, pois temiam ser tratados da forma como haviam tratado tantos outros povos. Toda a Grécia regozijou-se ao ver Atenas cair e os que os atenienses haviam expulso de suas próprias cidades agora retornar a elas.

Tucídides conta-nos que não decidiu escrever uma história apenas para agradar o público imediato. Ele ousava esperar que seu relato da guerra do Peloponeso pudesse “durar para sempre” — já que histórias humanas desse tipo com certeza aconteceriam outra vez. Ele ficaria pois satisfeito, disse, “se essas minhas palavras forem julgadas úteis por aqueles que desejam compreender claramente os eventos que ocorreram no passado e que, no curso das coisas humanas, serão, um dia ou outro e de modo muito semelhantes, repetidos no futuro”.

– marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.

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