Um povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz.

com a queda de Adão (Smith), fomos todos ao chão

O castigo foi o crime. Ao desobedecer a Deus para satisfazer seus próprios desejos, ao colocar este amor demasiado a si mesmo acima do amor suficiente a Ele, o homem condenou-se a se tornar escravo de seus próprios anelos carnais insaciáveis: uma criatura limitada e ignorante, abandonada em um mundo meramente material e intratável, para ali labutar, sofrer e por fim morrer. Feito de “cardos e espinhos”, resistente a nossos esforços, o mundo, disse Santo Agostinho, “não cumpre o que promete: é um mentiroso, e trapaceia”. A trapaça consiste na impossibilidade de aplacar nossos desejos libidinosos de bens terrenos, de dominação e de prazer carnal. O homem, portanto, está fadado a “perseguir uma coisa após outra, e nada permanece para sempre com ele […]. Suas necessidades multiplicam-se a tal ponto que ele não consegue encontrar a única coisa de que precisa, uma natureza simples e imutável”.

Mas Deus foi clemente. Deu-nos a Economia. Advinda a época de Adão Smith, a miséria humana havia-se transformado na ciência positiva de como nos havermos com nossas eternas insuficiências: como extrair a máxima satisfação possível utilizando meios sempre aquém de nossas necessidades. Tratava-se da mesma antropologia judaico-cristã, só que aburguesada, isto é, dotada de expectativas algo mais animadoras a respeito das oportunidades de investimento propiciadas pelo sofrimento humano. Em um famoso ensaio que delineava o campo desta ciência, Lionel Robbins reconheceu explicitamente que a gênese da Economia era a economia do Gênesis: “Fomos expulsos do Paraíso”, escreveu ele, “não temos nem a vida eterna nem meios ilimitados de gratificação” — em seu lugar, apenas uma vida de escassez, onde escolhar uma coisa boa é privar-se de outra. A verdadeira razão pela qual a Economia é a ‘ciência desoladora’ é que ela é a ciência da condição humana depois da Queda. E o Homem Econômico que habita a primeira página de (quaisquer) Princípios Gerais de Economia não é outro senão — Adão.

– marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.

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