Nesse caso, o problema está em onde deixar a cabeça da Medusa. E aqui Ovídio encontra versos que me parecem extraordinários para expressar a delicadeza de alma necessária para ser um Perseu dominador de monstros: “Para que a areia áspera não melindre a anguícoma cabeça, ameniza a dureza do solo com um ninho de folhas, recobre-o com algas que cresciam sob as águas, e nele deposita a cabeça da Medusa, de face voltada para baixo”. A leveza de que Perseu é o herói não poderia ser melhor representada, segundo penso, do que por esse gesto de refrescante cortesia para com um ser monstruoso e tremendo, mas mesmo assim de certa forma perecível, frágil. Mas inesperado, contudo, é o milagre que se segue: em contato com a Medusa, os râmulos aquáticos se transformam em coral, e as ninfas, para se enfeitarem com ele, acorrem com râmulos e vergônteas, que aproximam da hórrida cabeça.

– ítalo calvino, Seis propostas para o próximo milênio: leveza.

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