Na década de 70, inúmeras famílias que moravam precariamente no centro de Fortaleza foram expulsas pelo governo e levadas a morarem juntas no Conjunto Palmeiras — uma área recém-desmatada, sem nenhuma infra-estrutura “construída” pela Prefeitura especialmente para receber essa população. Jogavam tudo e todos nos caminhões e depois despejavam no Conjunto, onde haviam lonas e paus para que as famílias se abrigassem. O centro finalmente estava livre para o investimento imobiliário e o desenvolvimento econômico do país. Quase duas décadas depois, o Conjunto continuava sem água encanada nem esgoto. Então…

Em 1988 a luta pelo abastecimento de água teve seu ápice, em meio a uma intensa mobilização popular, com duas passeatas à Companhia de Água e Esgoto do Ceará (CAGECE) e, posteriormente, uma grande concentração em frente à sede do Governo do Estado, onde as lideranças locais deram um ultimato: ou se implantava a rede de água do Conjunto ou explodiriam a tubulação da adutora que abastecia a cidade de Fortaleza e que passava sob a área do Palmeiras. Deram um prazo de 15 dias para o início das obras pelo governo.

Relata uma das lideranças: “Falamos que depois de 15 dias explodiríamos a tubulação da adutora. Depois ficamos pensando sobre as consequências dessa atitude: nem tínhamos explosivos e, tampouco, sabíamos com exatidão onde passava a tubulação. Contudo, era uma queda de braço, alguma coisa faríamos. Os dias foram passando, discutimos sobre o que fazer até que chegou a data fatal. Logo cedo o Conjunto estava invadido de policiais, porém eles não sabiam em que ponto iríamos realizar o prometido. Nós havíamos combinado que, em certa hora, nos concentraríamos rapidamente em um ponto qualquer com picaretas, pás e ferros, tal como se fossemos começar a executar o prometido. Começamos a simular a perfuração do solo, o que levou algum tempo até ser percebido pelos policiais que avançaram sobre nós e fecharam o cerco. Dissemos: se acontecer alguma coisa com nós, explodiremos tudo, a água invadirá toda a área e morremos juntos. Vocês escolhem. Falávamos com firmeza e irados o que, por certo, deve tê-los deixado intimidados. Um tenente pediu calma e disse que iria falar com seu comandante. Acho que deve ter demorado uma hora. Voltou e informou que o governador havia se comprometido a iniciar imediatamente a distribuição da água para o Conjunto. As tropas se dispersaram e nós ficamos a comemorar mais uma vitória.”

– do livro Banco Palmas ponto a ponto.

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