Uma cidade para o poder.

A função geopolítica de abrigar os órgãos de poder do Estado determinou o conjunto do plano urbanístico da nova capital. No centro da concepção urbanística encontrava-se a ideia da separação entre os órgãos do poder político e as multidões populares. Aliás, a própria ideia de transferência da capital do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste estava ancorada nesse raciocínio.

(…) A maioria da população ativa que reside nas cidades-satélites trabalha no Plano Piloto e consome horas diárias no deslocamento entre o local de moradia e o local de trabalho. A construção de um extenso e dispendioso metrô de superfície tornou-se uma necessidade para a conservação do plano urbanístico original. O Plano-Piloto depende do reservatório de mão-de-obra representado pela sua periferia.

(…) Ideologicamente, esse plano, de autoria de Lúcio Costa, vinculava-se à tradição de pensamento urbanístico do francês Le Corbusier e da escola arquitetônica da Carta de Atenas, cujos princípios remontam ao IV Congresso de Arquitetura Moderna, realizado em 1933. A cidade deveria ser, a um só tempo, funcional e harmônica: uma engrenagem de residências, consumo e trabalho azeitada como uma máquina. Para isso, os planejadores deveriam dispor da capacidade de organizar o espaço de forma absoluta, excluindo as incertezas e os conflitos inerentes ao desenvolvimento espontâneo das aglomerações urbanas. A ordem seria um produto da autoridade e do saber urbanístico.

(…) Brasília abomina os transeuntes, as multidões. Todo o sistema de zoneamento e circulação da cidade prioriza o automóvel, a circulação expressa. O contato entre as pessoas deve limitar-se às unidades de vizinhança e às necessidades de trabalho. O convívio das multidões, típico das metrópoles, representa o contrário de tudo o que Brasília significa.

(…) A planura do sítio original favoreceu a criação de perspectivas retilíneas, descortinando amplos horizontes. As edificações que pontilham o espaço do Eixo Monumental são, quase todas, palácios que denotam nobreza, leveza e harmonia. Erguidos em concreto e vidro, ladeados por espelhos d’água, procuram sintetizar ideais de modernidade e arrojo. A ciência e a tecnologia: é isso que está metaforizado na arquitetura da cidade. Dessa forma, Brasília representa também uma tradução da ideia de política: a política deve ser a emanação da técnica administrativa, do saber e do poder, e não um produto dos conflitos entre interesses sociais.

– demétrio magnoli e regina araújo, Geografia do Brasil.

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