Zen.

Arrasta-se pelo rio o tolo, agarrado a um velho tronco. Ouve-se adiante o estrondoso trovão da cachoeira. O tronco é a vida. O tolo, eu.

Aforismos.

Uma hierarquia das faculdades; distância; a arte de separar sem criar inimizades; não misturar nada, não reconciliar nada; uma monstruosa multiplicidade que apesar disso é o contrário do caos – esta foi a condição prévia, o longo trabalho secreto e mestria do meu instinto.

– friedrich nietzsche, Ecce homo: “Porque sou tão esperto”.

Rapidez.

Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsê estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsê disse que para fazê-lo precisaria de cinco anos e uma casa com doze empregados. Passados cinco anos, não havia sequer começado o desenho. “Preciso de outros cinco anos”, disse Chuang-Tsê. O rei concordou. Ao completar-se o décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desenhou um caranguejo, o mais perfeito caranguejo que jamais se viu.

– ítalo calvino, Seis propostas para o próximo milênio: rapidez.

Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia, agiota, fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

– sophia de mello breyner andresen, em Geografia.

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga

Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece a imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.

– sophia de mello breyner andresen, em Geografia.

Sophia de Mello Breyner Andersen.

Estou apaixonado pelo Mar de Sophia, de Maria Bethânia. E assim descobri Sophia de Mello Breyner Andersen, uma poeta portuguesa.

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas

* * *

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar