A diferença entre teísmo e não-teísmo não está em acreditar ou não em Deus. Essa é uma questão que se aplica a todos, incluindo budistas e não-budistas. O teísmo é uma arraigada convicção de que existe uma mão na qual segurar: se fizermos a coisa certa, alguém vai nos dar valor e cuidar de nós. Isso é o mesmo que achar que haverá sempre uma babá disponível quando precisarmos de uma. Todos nós temos a tendência a fugir das responsabilidades e delegar nossa autoridade a algo exterior a nós. Não-teísmo é relaxar na ambiguidade e incerteza do momento presente, sem buscar algo que nos proteja. Às vezes, achamos que o dharma é externo – algo em que acreditar, algo que devemos atingir. Entretanto o dharma não é uma crença ou dogma. É a total apreciação da impermanência e da mudança. Os ensinamentos desintegram-se quando tentamos agarrá-los. É preciso experimentá-los sem expectativas. Muitas pessoas corajosas e compassivas já o experimentaram e transmitiram. A mensagem é destemida – o dharma nunca representou uma crença que seguimos cegamente. Ele, em absoluto, não nos dá nada a que possamos nos apegar.
- pema chödrön, Quando tudo se desfaz.
Mortal loucura.
23 janeiro, 2012
Há quem pergunta o que é a vida.
Uma hierarquia das faculdades; distância; a arte de separar sem criar inimizades; não misturar nada, não reconciliar nada; uma monstruosa multiplicidade que apesar disso é o contrário do caos – esta foi a condição prévia, o longo trabalho secreto e mestria do meu instinto.
- friedrich nietzsche, Ecce homo: “Porque sou tão esperto”.
The Network of Global Corporate Control.
22 novembro, 2011
Do portal de Ladislau Dowbor:
Um estudo de grande importância, mostra pela primeira vez de forma tão abrangente como se estrutura o poder global das empresas transnacionais. Frente à crise mundial, este trabalho constitui uma grande ajuda, pois mostra a densidade das participações cruzadas entre as empresas, que permite que um núcleo muito pequeno (1318 empresas, e um núcleo central de 147) exerça imenso controle articulado. Por outro lado, os interesses estão tão entrelaçados que os desequilíbrios se propagam instantaneamente, representando risco sistêmico. Fica assim claro como se propagou (efeito dominó) a crise financeira, já que a maioria destas megaempresas está na área da intermediação financeira. A visão do poder político das ETN (Empresas TransNacionais) adquire também pela primeira vez uma base muito sólida. Constata-se que com a rede de interesses e participações cruzadas o mercado passa a desempenhar um papel limitado. São interesses articulados de grupos onde todos se conhecem. O artigo completo (link acima) apresenta na p. 33 o peso do setor financeiro nas 50 principais empresas. O poder é real, político, articulado, e dispensa mecanismos de mercado.
A confiabilidade é altíssima. Trata-se de ampla pesquisa do ETH da Suiça, (Swiss Federal Institute of Technology), considerado o segundo centro de pesquisa tecnológica em importância mundial, depois do MIT. É uma instituição que conta com 31 prêmios Nobel (entre os quais Albert Einstein). O artigo tem 9 páginas, e 27 de anexos metodológicos. Está disponível online gratuitamente em inglês, no sistema arxiv.org. Um excelente pequeno resumo das principais implicações pode ser encontrado no New Scientist de 22/10/2011. (L.Dowbor)
link para a resenha do New Scientist traduzida para o português no site Inovação Tecnológica:
http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=rede-capitalista-domina-mundo&id=010150111022&mid=50link para a resenha em inglês no site New Scientist:
http://www.newscientist.com/article/mg21228354.500-revealed–the-capitalist-network-that-runs-the-world.html?DCMP=OTC-rss&nsref=online-newsVejam também artigo do Dowbor sobre esse tema em Artigos Online: A rede do poder corporativo mundial
A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.
- josé saramago, O conto da ilha desconhecida.
Uma cidade para o poder.
10 novembro, 2011
A função geopolítica de abrigar os órgãos de poder do Estado determinou o conjunto do plano urbanístico da nova capital. No centro da concepção urbanística encontrava-se a ideia da separação entre os órgãos do poder político e as multidões populares. Aliás, a própria ideia de transferência da capital do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste estava ancorada nesse raciocínio.
(…) A maioria da população ativa que reside nas cidades-satélites trabalha no Plano Piloto e consome horas diárias no deslocamento entre o local de moradia e o local de trabalho. A construção de um extenso e dispendioso metrô de superfície tornou-se uma necessidade para a conservação do plano urbanístico original. O Plano-Piloto depende do reservatório de mão-de-obra representado pela sua periferia.
(…) Ideologicamente, esse plano, de autoria de Lúcio Costa, vinculava-se à tradição de pensamento urbanístico do francês Le Corbusier e da escola arquitetônica da Carta de Atenas, cujos princípios remontam ao IV Congresso de Arquitetura Moderna, realizado em 1933. A cidade deveria ser, a um só tempo, funcional e harmônica: uma engrenagem de residências, consumo e trabalho azeitada como uma máquina. Para isso, os planejadores deveriam dispor da capacidade de organizar o espaço de forma absoluta, excluindo as incertezas e os conflitos inerentes ao desenvolvimento espontâneo das aglomerações urbanas. A ordem seria um produto da autoridade e do saber urbanístico.
(…) Brasília abomina os transeuntes, as multidões. Todo o sistema de zoneamento e circulação da cidade prioriza o automóvel, a circulação expressa. O contato entre as pessoas deve limitar-se às unidades de vizinhança e às necessidades de trabalho. O convívio das multidões, típico das metrópoles, representa o contrário de tudo o que Brasília significa.
(…) A planura do sítio original favoreceu a criação de perspectivas retilíneas, descortinando amplos horizontes. As edificações que pontilham o espaço do Eixo Monumental são, quase todas, palácios que denotam nobreza, leveza e harmonia. Erguidos em concreto e vidro, ladeados por espelhos d’água, procuram sintetizar ideais de modernidade e arrojo. A ciência e a tecnologia: é isso que está metaforizado na arquitetura da cidade. Dessa forma, Brasília representa também uma tradução da ideia de política: a política deve ser a emanação da técnica administrativa, do saber e do poder, e não um produto dos conflitos entre interesses sociais.
- demétrio magnoli e regina araújo, Geografia do Brasil.
Algum dia você morrerá.
Estendido em sua doente cama
à beira de seu último suspiro,
você será assaltado por toda sorte de dor.Sua mente se inundará
de medos e ansiedades
e você não saberá
o que fazer ou para onde ir.Só então você perceberá que
você não praticou bem.Os skandhas/agregados
(matéria, sensações, ideias,
impulsos e consciência)
e os quatro elementos em você
se desintegrarão rapidamente,
e sua consciência será lançada
para onde quer que seu retorcido
karma ancestral a conduza.A impermanência
não hesita.A morte
não esperará.Você não será capaz
de estender sua vida
por mais um segundo sequer.Quantas milhares de vezes mais
terá você que atravessar
os portões do nascimento e da morte.Se estas palavras são desafiadoras
ou mesmo ofensivas,
permita-as serem um encorajamento
para sua mudança.Pratique
heroicamente.Não acumule
posses inúteis.Não desista.
Estabilize sua mente,
elimine as percepções errôneas,
concentre-se, e não corra
a perseguir os objetos dos seus sentidos.Pratique diligentemente.
Determine-se em não permitir que seus dias
e meses passem desperdiçados.
- mestre zen guishan lingyou (771-854)
“Os problemas da ciência”, comentava Goethe, “são com grande frequência problemas de carreira. Uma única descoberta pode tornar um homem famoso e lançar o princípio de sua fortuna como cidadão. (…) Todo fenômeno observado pela primeira vez é uma descoberta, e toda descoberta é uma propriedade. Mexa-se na propriedade de um homem e logo suas paixões vêm à tona”.
- diálogos com Eckermann, 21 de dezembro de 1823. (citado em eric hobsbawn, A era das revoluções)
O rural e o urbano no Brasil.
20 maio, 2011
Em contraste, quando olhamos o Brasil real, 80% dos municípios brasileiros são rurais. O problema é que o nosso conceito de sociedade urbana é falso. O Prof. José Eli da Veiga tem insistido muito nisso. Consideramos urbano quem mora no perímetro urbano (e quem define o perímetro urbano é uma lei municipal). Então, quem mora num pequeno município de cinco mil pessoas, se habita no perímetro urbano, é considerado urbano. E é tão urbano quanto um habitante de São Paulo. É isso que dá os 83% do chamado Brasil Urbano. Na verdade, esse número precisa ser objeto de uma reflexão, quando pensamos o futuro do país. A maioria dos municípios brasileiros e mais de um terço da população brasileira pode ser considerada rural. Isso não é pouco. Isso é uma porção importante do país. Para ser mais precisa, na Contagem da População, feita em 2007, pelo IBGE, 87% dos municípios do Brasil têm menos de 50 mil habitantes. Não são 10%… Portanto, esse “ser um país urbano” precisa ser melhor discutido para pensarmos o futuro do país.
- tânia bacelar, economista e professora da UFPE, palestrando na I Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário em 2008. (leia no relatorio final da I CNDRSS, págs. 21-30)
Wikipedia, sobre a crise de 2008:
Nos últimos 60 anos, cada vez que a expansão do crédito entrou em crise as autoridades financeiras agiram injetando liquidez no sistema financeiro e adotando medidas para estimular a economia. Isso criou um sistema de ‘incentivos assimétricos’, conhecido nos Estados Unidos como moral hazard, que encorajava uma expansão de crédito cada vez maior. George Soros comenta:
O sistema foi tão bem sucedido que as pessoas passaram a acreditar naquilo que o então presidente Reagan chamava da “mágica dos livres-mercados” e que eu chamo de fundamentalismo de livre mercado. Os fundamentalistas de livre mercado acreditam que os mercados tendem a um equilíbrio natural e que os interesses de uma sociedade serão alcançados se cada indivíduo puder buscar livremente seus próprios interesses. Essa é uma concepção obviamente errônea porque foi a intervenção nos mercados, não a ação livre dos mercados, que evitou que os sistemas financeiros entrassem em colapso. Não obstante o fundamentalismo de livre mercado emergiu como a ideologia econômica dominante na década de 1980, quando os mercados financeiros começaram a ser globalizados, e os Estados Unidos passaram a ter um déficit em conta-corrente.
- george soros, The worst market crisis in 60 years, Londres: Financial Times, 23 de janeiro de 2008, 02:00 GMT, GeorgeSoros.com.